UM MINICONTO DE MITOLOGIA NÓRDICA
GANGLERI, O PEREGRINO
De minha autoria, Nicolas Girardi
Midgard. O reino dos homens, situado entre a sublime morada dos Æsir e o sombrio domínio de Hela. Um peregrino, vestindo um manto acinzentado, com barbas grisalhas e aparentemente sem rumo algum, vinha da floresta até o vilarejo mais próximo, procurando por uma taberna.
Este velho peregrino, cujo capuz cobria o rosto, encontrou um assento e bateu na mesa com seu cajado. Nisto, apareceu um homem grande e barrigudo, que lhe serviu uma caneca cheia do hidromel mais forte da região, dizendo:
_ Há, há, há, há! Não é a primeira vez que você aparece por aqui, velho! Lembro de ter te visto aqui no último inverno, quase acabou com todo o nosso estoque! Mas, desde que tenha prata o suficiente, é sempre bem vindo nessa pocilga! Skål!
O peregrino, então, apenas ergueu o braço e respondeu:
_ Skål!
Então, ele ficou a sós com seu hidromel, escutando o que acontecia ao seu redor. Foi quando, em uma das mesas, um jovem de cabelos ruivos desembainhou sua espada diante de dois grandalhões que estavam lhe provocando, o que chamou a atenção de todos os demais naquela taberna. O jovem bradou:
_ Seus cretinos! Não difamem o nome do meu pai! Ele morreu com bravura defendendo o vilarejo contra os Jotnar!
Nisto, um dos brutamontes exclamou:
_ Há, há! Mentira! Ele tentou fugir como um covarde! Vi com meus próprios olhos, e ainda deixou você aqui como prole, um garoto idiota que fede tanto quanto ele!
Então, o jovem avançou com ira para cima de ambos os oponentes, tentando cortar-lhes com sua espada, mas os dois brutamontes também desembainharam suas espadas e se defenderam dos golpes inexperientes do garoto. E, em poucos segundos, já aplicavam uma surra nele, atirando-o contra mesas, bancos e escudos pendurados na parede. Continuaram batendo nele até que o jovem parasse de se mexer, e então ambos os brutamontes deram fortes gargalhadas, arrastando o garoto para o lado de fora e arremessando-o na lama junto com os porcos.
Depois de toda aquela confusão, quando os olhares curiosos se dispersaram, o velho peregrino surgiu atrás do chiqueiro, e perguntou ao jovem se ele gostava do esterco. Nisto, o garoto, ensanguentado e enlameado, fez esforço para se levantar, mas acabou caindo devido à fadiga. Então, o peregrino aproximou-se e perguntou ao jovem qual era o seu nome, e ele, tentando erguer-se novamente, disse numa voz trêmula:
_ Meu... meu nome é Knut, filho de Ravi. E... você? Quem é você?
Nisto, o peregrino respondeu:
_ Sou Gangleri, o andarilho. E não pude deixar de notar a surra que você tomou.
Knut, já em pé, bradou:
_ Então você veio até aqui só para ver a minha humilhação? Isso te torna tão desprezível quanto aqueles malditos!
Quando Gangleri chegou mais perto, Knut pôde ver que ele usava um tapa olho, e realmente aparentava ser bem velho. Então, o peregrino falou:
_ Knut, filho de Ravi, você não teve determinação o bastante para defender a honra de seu pai. Isto te torna fraco, por isso você merece ficar mesmo entre os porcos.
Knut, com ira, avançou para cima de Gangleri, mas este, usando seu cajado, bateu na perna do garoto e o fez cair novamente. Então, o velho continuou:
_ Posso não ter um olho, mas observo mais coisas do que a maioria das pessoas são capazes. Você é o único que pode recuperar a sua honra e a de seu pai, e para isso deverá se preparar para enfrentar aqueles homens numa Hólmgang, fazendo jus à tradição pela qual os filhos de Egill Skallagrímsson resolviam disputas. Ou seja, irás lutar até matar ou morrer!
Knut, apoiando-se em um de seus joelhos, limpou o sangue escorrendo do nariz e disse:
_ Eu vou perder! Ainda que, por algum milagre, eu consiga derrotar o primeiro, já não terei mais forças para duelar com o segundo!
Gangleri, então, disse:
_ Não se tiver um tutor, alguém que lhe ensine a manejar a espada com maestria. Seu pai não lhe ensinou?
Knut, envergonhado, respondeu:
_ Ele tentava me ensinar, mas por alguma razão, eu sempre preferia evitar o caminho do confronto, então não me dedicava tanto à arte da guerra.
Gangleri, passando a mão pela barba, agachou-se e declarou:
_ Um homem sábio nunca almeja a guerra, mas deve estar sempre pronto para ela. Tolos são os que pensam que, se evitarem a batalha, viverão para sempre. Ainda que as lanças e machados o poupem, a velhice e as doenças não o farão.
Knut, levantando-se, perguntou:
_ Você parece ser um homem sábio. Poderia... ser o meu tutor?
Gangleri, envolvendo o jovem em seus braços, respondeu:
_ Posso, com uma condição. Uma vez que você decidir duelar até a morte com aqueles homens, não deve voltar atrás.
Knut, fazendo que sim com a cabeça, se pôs a caminhar junto com Gangleri, e ambos se dirigiram para uma floresta de musgos onde tinha um riacho por perto. Então, Gangleri bateu com seu cajado na porta de uma solitária cabana, de onde apareceu uma mulher trajada com roupas feita do couro de animais. Então, Gangleri exclamou:
_ Saudações, minha cara Sigrid! Como passou este último inverno?
Sigrid, fazendo uma careta, respondeu:
_ Bem demais, até você aparecer. O que quer aqui, Gangleri, o Alimenta Corvos?
Gangleri, olhando para Knut, limpou a garganta e continuou:
_ Sei que temos nossas desavenças, feiticeira da floresta, mas gostaria de lhe pedir um pequeno favor. Ficarei te devendo, isto é uma promessa.
Sigrid, com um olhar de deboche, respondeu:
_ Você já está me devendo muitas coisas, Gangleri. Tem certeza que quer aumentar a sua dívida?
Gangleri, suspirando, abriu os braços e falou:
_ Posso ser incompreendido às vezes, mas não sou um trapaceiro. Juro pelo único olho que me resta!
Sigrid, revirando os olhos, deixou com que eles entrassem, e então Gangleri explicou:
_ Preciso que você prepare uma poção com ervas, o jovem Knut precisa despertar suas habilidades sensoriais para que eu possa prepará-lo para um Hólmsgang.
Sigrid, aproximando-se de Knut, disse:
_ Rapaz, tem certeza de que é isso mesmo o que você quer? Você ao menos sabe que Gangleri não se preocupa com você, certo?
Antes de Knut responder, foi o próprio peregrino quem interviu, dizendo:
_ Não tenho nada a esconder, estou apenas ajudando o jovem a vingar-se pela honra do pai há pouco maculada.
Knut, olhando para Sigrid, falou:
_ Sim, isso é verdade. Não me importo com as intenções de Gangleri, quero apenas defender o nome de meu pai.
Sigrid, dando de ombros, pôs-se a preparar a poção, e depois de algumas horas ela mandou o jovem tomar. Knut engoliu o caldo com dificuldade devido ao gosto horrível, mas assim que terminou de tomar, adormeceu lá mesmo.
E, para sua surpresa, quando Knut acordou, ele estava em outro lugar, deitado num vale em meio à floresta. Isto o deixou com muitas perguntas. Ao chão, havia uma espada, e então Knut a agarrou. Mas não demorou muito até que ele ouvisse um ruído, e então viu que se tratava de um lobo... Knut tentou escalar pelo rochedo atrás de si, mas não conseguiu, por ser muito íngreme. E o lobo, faminto, aproximava-se cada vez mais do jovem, rosnando e salivando. Então, Knut agarrou firme sua espada com ambas as mãos e esperou até que o lobo o atacasse.
E a fera, vendo uma brecha, avançou para abocanhar as pernas do jovem, mas ele afastou o lobo golpeando de raspão em seu rosto. O animal faminto, rosnando mais forte, ignorou aquele ferimento e avançou novamente para cima de Knut, derrubando-o no chão. Knut havia largado a espada, e se debatia para manter o lobo afastado de si. As presas da fera perfuravam sua carne, e seus dentes tentavam abocanhar-lhe o crânio.
Então, por algum motivo, o lobo uivou de dor e recuou, e nisto Knut agarrou sua espada e continuou a digladiar com a fera, até penetrar a lâmina em seu coração. Knut estava ensanguentado, quando, do alto, apareceu Gangleri, que disse:
_ Você precisou de uma pequena ajuda da minha parte, Knut, mas se saiu bem. Sentiu na pele o que é estar diante da morte.
Knut, com raiva, exclamou:
_ Gangleri! Você que me trouxe até aqui? Maldito! Sigrid tinha razão sobre você!
O peregrino, descendo até o jovem, examinou o corpo do lobo, e então disse:
_ Você está pronto. Guarde todo o seu ódio para quando for enfrentar seus verdadeiros inimigos. E não se esqueça: o gado morre, parentes morrem, do mesmo modo que eu morrerei um dia. Mas o renome nunca morre daquele que obtém boa fama!
Knut cerrou os dentes e então suspirou, dizendo num tom sério:
_ Não estou pronto ainda. Não matei esse lobo por conta própria. Ficarei mais algumas semanas nesta floresta, tentando sobreviver à minha maneira, à mercê de outras feras. e não quero que você me ajude dessa vez, Gangleri.
O peregrino, fazendo que sim com a cabeça, simplesmente afastou-se e foi embora, deixando Knut sozinho por lá. Dias e noites se passaram, e Gangleri ainda não havia retornado. Somente após a chegada do outono que se aproximava, o peregrino reapareceu em meio à floresta.
Após procurar com atenção, viu uma caverna, com alguns restos de comida espalhados pelo chão e uma fogueira acesa. Mas, então, sentiu uma lâmina de espada encostando em sua nuca, e uma voz lhe disse:
_ Está desatento? Se eu quisesse já poderia ter cortado sua cabeça.
Era ninguém menos que Knut, agora com um corpo mais robusto e cheio de cicatrizes. Gangleri, vendo-o, falou:
_ Knut! É você mesmo? Até para mim, é difícil de acreditar! Vejo que soube se virar muito bem sozinho, afinal de contas. Estou ansioso para saber o que as Nornas reservaram para você!
Então, após compartilharem a carne de um javali morto, Gangleri e Knut voltaram ao vilarejo, e foram até aquela mesma taberna de antes. E lá estavam os dois brutamontes. Gangleri ficou na entrada, sem dizer nada, e Knut caminhou até eles, anunciando em voz alta:
_ Amund! Birger! Eu, Knut, voltei até aqui para lhes dar uma última chance de se redimirem por terem maculado a honra de meu pai!
Nisto, os dois brutamontes levantaram-se, examinando o homem que estava diante deles. Um deles, Birger, disse:
_ Há, há, há! Quer dizer que o menininho virou homem? E quer lutar contra a gente de novo? Pelos deuses! É hoje que você vai morrer! Amund, deixa eu cuidar dele, da última vez você se divertiu muito mais do que eu com esse cão!
Amund, com deboche, respondeu:
_ Sim, é claro! Pode ficar com ele, Birger! É todo seu!
Birger, então, tomou o restante do hidromel no caneco e bradou como um urso, falando:
_ Vamos duelar aqui mesmo, verme! Hoje vou te mandar para o Hel, tenho certeza que encontrará o seu pai por lá! Há, há, há, há!
Knut, com calma, retrucou:
_ Você está bêbado, não está nas melhores condições para duelar comigo.
Mas Birger, irritado, desembainhou sua espada e correu na direção de Knut, tomando distância com os braços para cortá-lo ao meio. Mas Knut se desviou com facilidade e, sem sequer usar sua espada, segurou os braços de Birger e golpeou suas articulações, fazendo-o soltar a arma. Então, Knut desferiu um soco na mandíbula dele e logo em seguida desferiu mais duas pancadas direto em seu crânio, derrubando o grandalhão.
Amund, mal acreditando naquilo, xingou:
_ Maldito! Eu mesmo vou te matar!
Então, Amund agarrou uma mesa e a atirou na direção de Knut, mas este se abaixou e revidou com um golpe em suas pernas, agarrando-lhe por trás e apertando-lhe o pescoço. Quando Amund já estava sem fôlego, Knut desferiu fortes pancadas em sua cabeça com o punho direito, até derrubá-lo. Em seguida, Knut finalizou com um pisão em seu maxilar, que quase arrebentou a mandíbula do homem. Todos ao redor olhavam com espanto. Então, Gangleri se aproximou e disse:
_ Agora termine com isto, Knut. Tire a vida deles.
Knut, vendo que ambos estavam caídos e atordoados, respondeu a Gangleri:
_ Sei que prometi matá-los, mas eles não me oferecem mais resistência. Diga-me, Gangleri, como posso me orgulhar em tirar a vida de inimigos que não me oferecem mais perigo do que lobos na floresta? Já os humilhei diante de todos aqui, e isto deve bastar para recuperar a honra de meu pai.
Mas, enquanto Knut falava olhando para Gangleri, escutou atrás de si Birger se levantar, e para sua surpresa ele agora havia mudado de forma: isto porque, na verdade, Birger não era um homem, e sim um Jotnar! Um ogro do gelado reino de Jotunheim, infiltrado em Midgard! E, logo em seguida, Amund também se ergueu, mostrando também sua verdadeira aparência, um segundo Jotnar!
Assim, os Jotnar exclamaram juntos, numa voz gélida e grossa:
_ Seu moleque desprezível! Quer ver qual é a nossa verdadeira força? Vamos te mostrar! Fomos nós quem matamos o seu pai, nós que atacamos a vila! E vocês nunca desconfiaram! Há, há, há, há!
Knut sentiu um misto de raiva, medo e imponência diante dos Jotnar, e então Gangleri tomou a frente e exclamou:
_ Sim, eu sabia! Já desconfiava desde a primeira vez em que os vi! mas agora tenho a confirmação! Você já fez o bastante, Knut! Deixe o resto por minha conta! Você recuperou a honra de seu pai, Ravi! A partir deste instante, é hora de mostrar a vocês, odiosas criaturas de Jotunheim, a minha verdadeira identidade!
Nisto, o corpo de Gangleri começou a se elevar, e ele abriu os braços enquanto seus cabelos balançavam no ar. O peregrino deu um forte suspiro e exclamou, mudando completamente a sua voz:
_ Escutem, vermes de Jotunheim! Eu não sou apenas Gangleri. Também sou Hávi, Grímnir, Gramr, Fengr, e tantos outros! Meus corvos são Hugin e Munin, eu me sento no trono do mais alto dos ramos da grande árvore do mundo, Yggdrasil! Sou o deus dos mortos, o deus dos enforcados, o deus dos prisioneiros, o deus dos fardos, o deus da sabedoria, o deus dos corvos, o deus da guerra, o deus da magia e também da profecia! O sublime, o altíssimo, o pai de todos os deuses e todos os homens! Mas se nenhum desses nomes faz com que vocês tremam de medo, vou pronunciar aquele que todos os seres conhecem, independente do mundo em que habitam! Eu sou... ODIN!!!
Nisto, uma poderosa onda de energia tomou conta de todo o local, e os Jotnar só puderam gritar antes de serem completamente desintegrados. Todos ficaram atônitos com o que tinha acontecido e, quando o jovem Knut acordou em meio àquela confusão, viu que metade da taberna estava destruída, e que dos Jotnar só restaram cinzas. Em seguida, olhando para um lado e para o outro, Knut tentou procurar por Gangleri, mas não o encontrou. Ele era Odin - pensou o jovem, mal acreditando naquilo tudo. Knut precisaria de tempo para processar tudo aquilo, mas foi quando, do lado de fora, ele se deparou com um belo cavalo, que viera direto de Asgard, a sublime morada dos deuses! Knut ficou maravilhado, e viu o bilhete na cela do animal, escrito:
" Esta é uma recordação de Asgard que quero deixar para você, filho de Ravi. Quero que cuide bem do cavalo, e dê a ele o nome que quiser! E Knut, espero um dia poder revê-lo no meu salão...
Gangleri, ou Odin, o Pai de Todos "
Comentários
Postar um comentário