Sobre mim: meu nome é Nicolas, sou criador deste blog sobre mitologia e autor da saga "Os Filhos da Guerra", livro atualmente disponível pelo site da Uiclap ou pela Amazon. Também escrevo mini-contos, como este.
Halloween: um velho guerreiro
um miniconto de minha autoria, inspirada na mitologia celta!
Em algum lugar da velha Irlanda, um homem contemplava o horizonte distante e se preparava para o que estava por vir. Este homem já foi conhecido por muitos nomes: já o chamaram de Brayan Cruálach (Brayan, o Cruel), Brayan Mímhorálta (Brayan, o Imoral), Brayan Bradach (Brayan, o Pirata), Brayan Gan Chroí (Brayan, o Sem Coração), Brayan Diabhal (Brayan, o Demoníaco), Brayan Gearrthóir Ceann (Brayan, o Cortador de Cabeças) e tantos outros. Este guerreiro estava agora sentado, encarando o pôr do sol, e dando um suspiro ao se lembrar de todas as suas aventuras passadas.
Seu corpo talvez tivesse mais cicatrizes que o número de estrelas no firmamento. Ele já beirava os oitenta anos de idade, com uma cinzenta barba longa desgrenhada e cabelos atrapalhados que caíam até a altura dos ombros. Brayan foi até um lago próximo e molhou seu rosto, e com uma faca cortou o excesso da barba, deixando-se mais apresentável para o que provavelmente seria seu último confronto. Ele apoiou-se sobre uma árvore e então voltou a se lembrar de tudo o que já fizera em vida.
Ele tinha arrependimentos? Sim, alguns. Mas, no fundo, o que mais importava para ele era a memória das poucas pessoas que já amou. Era final de outubro, a época do Samhain, a época do Halloween. Brayan sabia que o acerto de contas iria chegar, pois os fantasmas de seu passado iriam caçá-lo, para acertar as contas com ele. Por isso, Brayan se isolou no alto de uma montanha em sua modesta casa de madeira para travar a última de suas batalhas, para derramar as últimas gotas de sangue, para cometer um último assassinato - ou morrer tentando.
Brayan, calmamente, afiou a ponta de sua espada, lembrando-se dos velhos tempos em que a usou para cortar carne e ossos dos inimigos. Este homem havia despertado a fúria de seres terríveis, cujas aparências fariam qualquer um ficar paralisado de tamanha impotência diante do horror mais vil que se possa imaginar. Brayan, então, estava preparado para arcar com as consequências de tudo o que fizera até então, e se lembrou com ternura das pessoas com quem mais se importou em vida.
No fundo, ele também tinha medo, como qualquer outro homem. Mas era o medo que o manteve vivo até então, e este guerreiro empunhava novamente sua espada e pegava seu elmo enferrujado, pois sabia muito bem o que lhe aguardava. Na época do Samhain, o Outro Mundo comunicava-se com o mundo dos vivos, e Brayan já presenciara situações mais macabras e tenebrosas do que o pior dos pesadelos de um moribundo à beira da morte.
Ele ergueu sua espada, e se espantou quando esta lhe pareceu mais pesada que o usual. Mas ele apenas riu, depois pegou uma pá e desenterrou um baú: de dentro dele, Brayan tirou um par de botas, uma calça de lã e uma cota de malha coberta por teias de aranha. Ele vestiu seus trajes e pegou também um bracelete, que era algo que lhe lembrava de sua juventude. Por fim, colocou seu elmo de bronze e pegou um antigo amuleto de seu povo de origem, o Nó Celta. Então, esperou o anoitecer.
Ao longe, na vasta escuridão da noite, Brayan, atento, só pôde ver uma névoa contra a luz do luar. Em meio à névoa, surgia então uma figura. Era um ser tenebroso. Uma criatura humanoide, de pele esverdeada e com um rosto absolutamente apavorante: tratava-se de um rosto com aparência esquelética, como se a pele da criatura tivesse sido completamente esticada sobre a musculatura, fazendo transparecer as marcas dentárias e dentes caninos. Ainda, seus olhos sem pupila faziam lacrimejar enxofre, junto a um grunhido diabólico vindo de sua garganta. Era um grunhido antinatural, pois nada na natureza poderia reproduzi-lo, sequer descrevê-lo. Um grunhido contínuo e agudo, que revelava uma completa anomalia entre todas as criaturas. Serpentes que estavam por perto se contorceram de medo, e os pássaros levantaram voo. Mas, ao contrário, Brayan exclamou:
_ Você é um desgraçado muito feioso, vou te picar em quatro e depois te assar na fogueira, seu gosmento dos infernos!
Em resposta, a criatura pronunciou as seguintes palavras, num tom tão estremecedor que fez Brayan sentir um calafrio:
_ Não pronuncie palavras imundas, você é um ser patético que merece morrer da pior forma possível. Vou torturá-lo até a morte, pois quero ouvir seus gritos de agonia e sofrimento.
Brayan, ouvindo aquilo, encheu os pulmões de ar e retrucou:
_ Otário! Vou chutar seu traseiro imundo de volta para o Outro Mundo, de onde nunca deveria ter saído! Pois saiba que eu sou o pior de todos os assassinos! Sou Brayan Cruálach, Brayan Mímhorálta, Brayan Bradach, Brayan Gan Chroí, Brayan Diabhal, Brayan Gearrthóir Ceann, e muitos outros!
A criatura nada respondeu. Ao invés, regurgitou uma flecha da garganta e, arrancando uma de suas próprias costelas com as garras, usou-a como arco para tencionar aquela flecha, na direção de Brayan. O ser maligno manteve os olhos arregalados e sem pupila fitados no guerreiro, e então, disparou aquela flecha. Brayan usou a bossa do escudo para se proteger, mas o impacto foi tamanho que despedaçou seu escudo em várias partes e ainda teve o braço ferido. O velho guerreiro xingou, com aquela flecha cravada no seu braço. Mas ele não teve tempo de tirá-la, pois, quando menos percebeu, a figura macabra já havia desaparecido de sua frente.
Só que, detrás, algo surgia do próprio chão: quando Brayan se virou, viu uma garra afiada cortando-lhe brutalmente as entranhas, e nisto o guerreiro tentou revidar com um golpe da espada. A criatura tenebrosa, porém, esquivou-se e jogou a espada do guerreiro ao lado, agarrando seu rosto. Com uma das unhas, perfurou seu olho direito, e Brayan gritou com todas as suas forças. Mas, puxando de qualquer jeito a flecha cravada no braço, Brayan a usou para espetá-la a fundo no ouvido da criatura, que deu alguns passos atrás e grunhiu. Tirando a flecha do ouvido ensanguentado, a criatura de face medonha encheu os pulmões e vomitou enxofre em cima de Brayan, que teve que se virar de costas na mesma hora.
Ele estava ardendo, sua cota de malha estava arrebentada, e suas costas borbulhando de tanta dor. Brayan, então, arrastou-se no chão com a mão sobre o olho ensanguentado. Seu inimigo, aparentemente, havia triunfado: mas, quando a criatura finalmente puxou-o pelo braço para pôr lhe um fim, o guerreiro celta pegou seu próprio amuleto e o pressionou contra a testa daquela besta. Ele tinha esperado justamente por esse momento; ficar perto o bastante do inimigo para encostar-lhe o amuleto. Neste momento, a testa da criatura começou a arder, e Brayan fez questão de pressionar com ainda mais força.
Tratava-se do Nó Celta, um símbolo utilizado como amuleto de proteção contra os espíritos e seres malignos. A criatura começou a gritar, tentando afastar o amuleto de si. Mas o guerreiro segurava o braço do oponente com todas as forças que lhe restavam, e afundou ainda mais o amuleto contra a testa da criatura odiosa. O oponente, com suas unhas afiadas, tentou cortar mais uma vez o rosto do guerreiro - mas dessa vez acertou o elmo, que se partiu ao meio. Em seguida, Brayan desferiu um soco contra o rosto da aberração e pisou em seu peito, colocando o amuleto dentro de sua boca e fechando-a com tanta força que quebrou seus dentes.
A vil criatura se debatia violentamente, arranhando os braços de Brayan e cortando-lhe a carne. Por mais insuportável que fosse, Brayan resistiu à dor e se manteve firme, apertando com ainda mais força a mandíbula da criatura, quando o cérebro da mesma começou a ferver e arder devido ao amuleto. Nisto, o que se seguiu foi um barulho de estouro, e o crânio da besta tinha sido arrebentado devido ao singular poder do amuleto.
Brayan, com o corpo coberto de enxofre, terríveis ferimentos e agora cego de um olho, encostou-se no chão e suspirou, dizendo a si mesmo que este era o fim... Mas, por alguma razão, Brayan ainda sentiu um impulso vital no seu peito, de forma com que, embora muito ferido, talvez aquele não fosse o seu fim definitivo. Então, Brayan se arrastou com dificuldades até a sua casa de madeira, onde tentaria cuidar de seus múltiplos ferimentos. Ferimentos estes que, se pudessem ser curados, se tornariam mais cicatrizes para a sua coleção...

Excelente mito Nícolas! Creio que este seu mito, está intimamente relacionado a postagem anterior, sobre sua pessoa. Onde você expõem a crença pessoal de haver em nós uma vontade que faz enfrentarmos os vários obstáculos comuns da vida. Isto está representado, no fato do guerreiro ter a determinação de sacrificar-se para matar a cruel criatura do Outro Mundo, como de já ter sobrepujado tantos desafios durantes seus noventa anos,
ResponderExcluirFico feliz que tenha gostado. Sim, resolvi fazer transparecer um pouco dessa ideia. É um mini conto que me veio à cabeça com o intuito de mostrar que, mesmo aos 90 anos, este guerreiro deu tudo de si.
ExcluirHi Nicolas. Amazing text! It was compelling and deep.
ResponderExcluirRAFAEL BASTOS
ExcluirThank you very much, Rafael !
ExcluirRafael, I also wrote a book, actually it's a e-book, digital. It'a on the Amazon site: it's called "Os Filhos da Guerra".
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