O Misticismo Cristão
As discussões teológicas, certamente, são típicas das três grandes religiões monoteístas, ao passo que a própria filosofia raramente ocupou-se propriamente de uma perspectiva politeísta. Isto ocorre porque a relação com os deuses acontecia de maneira quase que exclusivamente prática, e não teórica. De fato, os povos pagãos como os gregos não se preocupavam com uma abordagem muito teórica de seus deuses, o que não é nenhum descrédito. Mas, dentre os próprios filósofos gregos pagãos como Aristóteles, não se utilizava muito o conceito de múltiplos deuses para as grandes explicações metafísicas.
Tendo isso em consideração, a maioria das teses e problemas teológicos acontecem na perspectiva das três grandes religiões monoteístas, a saber, judaísmo, cristianismo e islamismo. É sobre isso o que iremos falar nesse post, a respeito de uma das mais interessantes concepções teológicas no cristianismo.
Por volta do ano 500 depois de Cristo, o filósofo Pseudo-Dionísio Areopagita desenvolve uma concepção da teologia cristã segundo um viés místico. De acordo com a sua teologia negativa, a razão humana não é capaz de compreender ou definir o ser de Deus, daí a impossibilidade de afirmarmos qualquer coisa sobre Deus.
A teologia negativa no cristianismo também foi incorporada ao judaísmo, por pensadores como Moisés Maimônides. Assim, quando dizemos que Deus é bom ou que Deus é amor, estaríamos definindo e conceituando seu ser, o que seria impossível - para esta visão teológica, Deus está além da compreensão racional. Mesmo quando dizemos que Deus existe, deveríamos tomar uma certa precaução: o conceito de Deus está além da mera existência. Deus, portanto, seria mais que "amor", mais que "bondade" e mais que "existência".
Nicolau de Cusa, já por volta do ano 1.400, afirma que Deus está totalmente além da apreensão racional, pois uma mente finita não pode compreender um ser infinito. Ou seja, dizer que Deus quer algo ou que deseja determinada coisa seria impossível, pois não poderíamos compreender o ser de Deus.
Este viés místico, assim, privilegia uma abordagem metafórica e alegórica ao invés da abordagem lógica e racional. Existe também o conceito de teologia afirmativa, segundo o qual podemos falar sobre o que Deus é, através de conceitos. Em algumas ocasiões, os teólogos utilizavam ambas as perspectivas em conjunto.
Fonte: "O Livro da Filosofia: As Grandes Ideias de Todos os Tempos", páginas 84 e 85 (Moisés Maimônides).

Analisando num viés filosófico religioso: se dizermos que o ser de Deus é incompreensível, estamos já o definindo, ou seja, limitando a um pressuposto, ou até mesmo que Ele é um Deus. Ao meu ver, é impossível não ter um conceito verdadeiro de algo, pois até um ínfimo sempre se conhece. Em nossa limitação conhecemos a Deus, mas pela revelação o conhecemos melhor.
ResponderExcluirSim, dizer "Deus" já seria conceituar. Não vou me ater à discussão teológica propriamente, mas de fato, tem limites nessa concepção. Embora seja interessante.
ExcluirCreio que há uma confusão entre o ser Deus e o dizer de Deus. O dizer não muda a substância do ser.
ExcluirTalvez, de fato. Esse foi um post mais filosófico, ao invés de uma história específica. Contudo, creio que essas informações ajudem na própria compreensão do contexto cristão na Idade Média.
ExcluirVerdade, da Baixa a Alta idade Média.
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