Mitologia Tupi-Guarani

    O povo indígena tupi-guarani habitava a região em que hoje corresponde a países como Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e também Bolívia. Esses povos habitavam, por exemplo, a costa brasileira há séculos (eles enfrentaram outras tribos nesta região e tomaram seu lugar, ainda por volta do ano 1000), possuindo uma rica cultura politeísta, a qual iremos explorar um pouco. Para os nativos, a criação do mundo está relacionada com o grande deus Tupã, que se manifesta no próprio estrondo dos trovões que caem do céu. Tupã, ao criar tudo na terra, moldou estátuas de argila (ou barro) do homem e da mulher, dando vida a eles, aos primeiros seres humanos. Guaraci (deus sol) e Jaci (deusa lua) são filhos de Tupã, além da deusa Ceuci que, por sua vez, sem perder a virgindade concebeu um filho (Jurupari). Ceuci engravida, assim, ao comer um fruto da árvore cucura-purumã, e os colonizadores católicos a associaram com a figura de Virgem Maria. O deus sol Guaraci, no mito, alterou a ordem matriarcal da sociedade e instituiu a ordem patriarcal, de forma com que as mulheres não poderiam mais participar das cerimônias e cultos. Ceuci, no entanto, querendo rever o filho Jurupari, vai até o local onde estava sendo realizada uma cerimônia ao seu filho. Tupã, ao ver isso, a fulminou com um raio, e Jurupari acaba por não fazer nada a respeito para não contrariar Tupã.

    É importante destacar que, segundo muitos estudiosos do folclore brasileiro, muitos dos elementos geralmente associados a Tupã podem ter sido tão apenas fruto da visão cristã propriamente. Por exemplo, no Livro de Jó é dito que o homem foi criado do barro, e também a representação de Tupã como sendo o senhor de todas as coisas poderia ter sido uma tentativa de facilitar a associação deste com a figura do Deus bíblico. Talvez a própria deusa Ceuci e sua virgindade pode também ter sido, seguindo essa linha de pensamento, resultado de uma visão já cristianizada. Desta maneira, o mais provável é que Tupã fosse, na verdade, tão apenas a divinização de um elemento da natureza, a saber, o trovão e os relâmpagos, e não um deus personificado exatamente.

    Mas a mitologia tupi-guarani também tem o seu submundo e, consequentemente, o deus que ali governa: Anhangá. Anhangá é um deus que protege os animais da floresta, atrapalhando aqueles caçadores sem integridade. Ele também pode mudar de forma, enganando as pessoas e, inclusive, trazendo maldições e desgraça para aqueles que se esbarrassem com ele. A visão introduzida pelos colonizadores cristãos fez realçar em Anhangá seus aspectos mais sombrios e maléficos. Anhangá, em sua forma original, possui a aparência de um homem com chifres de veado e olhos de fogo. Anhangá, sendo associado ao submundo, também representa um enorme perigo para os mortos, razão pela qual os vivos ofereciam comida para que o Anhangá dela se alimentasse ao invés de devorar os mortos.

    Sumé, por sua vez, é o deus que transmite a sabedoria, responsável por ter criado as leis e por ter ensinado o homem, dentre outras coisas, a plantar e colher mandioca. Sumé dedicou-se a pôr um fim à prática do canibalismo e da poligamia, mas, rejeitado e expulso, desapareceu e nunca mais retornou. Existem outras divindades de muitas outras tribos da América do Sul, mas estas são as principais de acordo com a cosmovisão tupi-guarani.

    Geralmente, quando as pessoas pensam nas figuras do folclore brasileiro, sempre nos vêm à mente aqueles personagens caricatos e brincalhões que as crianças adoram. Pois bem, o meu intuito é trazer uma visão bem diferente, um olhar muito mais sombrio para as criaturas do nosso folclore! Falaremos a respeito do Boitatá, Curupira, Iara, Saci Pererê, Vitória-Régia e Matinta Perera.

    Boitatá é uma serpente luminosa gigantesca (ou, em outras versões, um touro que expele fogo pelo nariz) que devora a todos aqueles que queimam e incendeiam florestas. Essa serpente, de tanto comer os olhos dos animais mortos, passou a conter o brilho dos mesmos dentro de si, tornando-se de fogo. O Curupira, por sua vez, é uma figura folclórica assustadora com cabelos flamejantes e que anda com as pernas torcidas para trás (confundindo as pessoas que o perseguem ou que dele tentam escapar), sendo o responsável por capturar e sumir de vez com os viajantes, incutindo um terrível medo nos caçadores. O Curupira também possui a habilidade de imitar a voz de outras pessoas, atraindo esses viajantes ou caçadores para encurralá-los e matá-los no meio da floresta. Iara é uma criatura metade mulher e metade peixe que mora nas águas, cantando melodias atraentes aos homens que, ao chegarem perto, são subitamente afogados como presas perfeitas. Iara era uma bela mulher originalmente, mas ela foi vítima de uma tentativa de assassinato pelos irmãos que a invejavam. No entanto, foi Iara quem os matou, devido à sua força como guerreira. Foi quando seu pai, castigando-a por ter matado seus irmãos, a lança no rio, onde é salva por peixes e se transforma na temida sereia numa noite de lua cheia.

    Já o Saci Pererê é um ser sobrenatural que usa um gorro vermelho pontiagudo na cabeça que lhe confere poderes mágicos e devastadores. Ele se locomove pulando, pelo fato de ter uma só perna. Saci Pererê também possui um rabo comprido e fuma um grande cachimbo, tendo como diversão prejudicar os viajantes com ardis maléficos, além de poder, devido ao seu gorro mágico, causar grandes e terríveis redemoinhos. Com seus dentes afiados, o Saci pode morder sua presa e sugar seu sangue, além de também se entreter em matar seus desafetos com um porrete. A Vitória-Régia também é uma das mais conhecidas figuras do folclore tupi-guarani. Uma indígena chamada Naiá era encantada pela beleza de Jaci, a deusa lua (a própria lua), quando ela vê o reflexo da lua na água e mergulha, mas acaba se afogando e morre. Jaci, assim, transforma Naiá na planta aquática Vitória-Régia (nativa da região da Amazônia), que só abre suas pétalas ao luar. A Matinta Perera é uma feiticeira velha que se transforma em coruja na chegada do anoitecer. Matinta Perera possui um modo particular de comunicar às pessoas sua presença, espalhando o medo e a superstição: ela, transformada na coruja conhecida como "Rasga Mortalha", solta um estridente ruído similar ao som de uma vestimenta sendo rasgada, no telhado das casas. Quando isso acontece, tem-se um mau agouro, e a Matinta Perera espalhará terríveis doenças e a morte caso não lhe seja oferecido algo em troca, como o tabaco por exemplo.

    Existem também, ainda, a lenda da Mula sem Cabeça e do boto-cor-de-rosa. No entanto, essas lendas não são propriamente do folclore brasileiro dos povos tupi-guarani, e sim uma introdução europeia em meados do século XVII, já que os colonizadores passam a ter contato com os tupi-guaranis no século XVI. Quando uma mulher mantinha relacionamentos amorosos ou sexuais com um padre, uma maldição cairia em seu espírito, fazendo com que ela se transforme numa grotesca criatura, a Mula sem Cabeça: como o próprio nome diz, trata-se de uma mula que, acima do pescoço, possui um fogo ardente que queimará a todos aqueles que estiverem em sua frente e, caso a pessoa não seja morta pelo fogo saindo da cabeça do animal, corre o risco de ser violentamente pisoteada pela correria insana da criatura amaldiçoada. Já o boto-cor-de-rosa é outra criatura assustadora que originalmente possui a forma de um boto, mas que depois se transforma num homem de incomum charme e beleza, utilizando-se de tal ilusão para engravidar as mulheres e depois voltar para as águas. Transformado em homem, esse ser maléfico usa terno e um chapéu para esconder o orifício que os botos normalmente possuem no alto da cabeça. Mas o boto-cor-de-rosa nem sempre se dava bem, porque existem histórias nas quais a criatura é caçada e morta violentamente em retaliação.

    Existe também a criatura conhecida como Mapinguari: um enorme monstro que, de acordo com a lenda, possui o corpo revestido por uma armadura, feita do casco de uma tartaruga. O Mapinguari possui um único olho na testa e uma enorme boca saindo do próprio estômago, para devorar os viajantes. A lenda do Corpo Seco, por sua vez, não é muito diferente de outras lendas sobre vampiros ou seres que retornam após a morte para se alimentarem dos vivos: trata-se daquelas pessoas que, ao serem rejeitadas na vida após a morte, ficam condenadas a vagar pelo mundo dos vivos. Sem dúvida, porém, a mais bizarra (e assustadora) criatura do nosso folclore é o Ataíde: uma criatura cuja genitália é tão grande que fica enrolada no próprio corpo.

    Por fim, temos a Cuca. A Cuca é uma bruxa corcunda de aspectos horrendos e repugnantes que sequestra crianças e as devora; em outras palavras, é o próprio bicho papão, conforme a origem europeia da mesma. Posteriormente, a Cuca ganhou outro aspecto, a saber, a de uma bruxa com a cabeça e o corpo de um jacaré, tal como aparece na obra de Monteiro Lobato (aparecendo também na série Sítio do Picapau Amarelo, de 2001).
 



 Imagem: PIXABAY


   

          

Comentários

  1. Realmente então é comum a todas as culturas haver mitos amendrontadores de criaturas sobrenaturais, até mesmo os seres fantásticos do folclore brasileiro não são desde o princípio infantis. Acredito que o desconhecido no conceitual popular, remete no geral ao mal, pelo medo inerente ao homem. O inconsciente se manifestando na vida consciente. Ao meu ver, assim muitas histórias se originam.

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    1. Sim, eu optei por trazer essa versão mais assustadora do nosso folclore. Penso que fica até um pouco mais interessante. Mas, claro, a versão que conhecemos não está errada, são apenas visões diferentes.

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