Arábia: o Islamismo

    Como se sabe, a Arábia nem sempre foi monoteísta. No passado, o que havia era uma crença politeísta - bastante rica - não só em vários deuses como também em outros seres sobrenaturais, dos quais já falamos no post sobre o paganismo árabe. Porém, a partir do século VII, surge uma religião monoteísta conhecida como islamismo, e a grande divindade que passa a ser cultuada no lugar de Hubal, Manat e Al-Qaum é Allah.

    Quais são as características de Allah? Allah, sendo uma divindade monoteísta, possui aspectos semelhantes ao Deus cristão: é Todo Poderoso, eterno e criou tudo o que existe. Allah, segundo o Alcorão, cria os primeiros seres viventes a partir da água primordial. E, semelhantemente à Bíblia, criou o ser humano a partir do barro, além de nos dar uma alma - que, ao contrário do corpo, é eterna. Os muçulmanos acreditam que, após a morte, o nosso espírito passaria para uma outra dimensão - Barzakh é o nome designado à barreira que separa o mundo dos vivos da vida após a morte.

    Podemos pensar no Barzakh como uma espécie de "purgatório" também, pois ali as almas se preparam para seguir seu caminho nos pós-vida. Em Barzakh, a alma descansará até o Último Dia, no qual Allah julgará e decidirá seu rumo: de um lado, o Jannah e, de outro, o Jahannam. O Jannah é o paraíso islâmico, onde a pessoa justa poderá gozar de uma vida eterna com muito vinho, muitos jovens lhe servindo e muitas mulheres virgens para que um homem desfrute dos prazeres carnais. A princípio, podemos pensar que o islamismo possui uma cosmovisão um tanto parecida com religiões mais antigas que enxergavam a vida após a morte como um lugar de satisfações "mundanas" - como o Valhalla nórdico, em que os heróis de outrora comem e bebem com os deuses preparando-se para o Ragnarok -, mas há uma diferença. No islamismo, isto é permitido na própria vida após a morte como uma espécie de recompensa por demonstrarem sua fé, mas existiam regras mais rígidas em relação ao comportamento cotidiano, a saber, envolvendo tanto relações sexuais quanto restrição ao consumo de determinados alimentos (álcool e carne de porco, por exemplo).

    O Jahannam, por sua vez, é o inferno. Lá, há somente punição e sofrimento eternos, tanto para os injustos quanto para os que não crêem em Allah. Jahannam é um lugar de fogo eterno e ardente, e a comida de lá entra para o estômago como se fosse chumbo derretido. Mas, afinal, até a chegada do Último Dia, como será o fim de tudo o que existe segundo o Alcorão? Para os muçulmanos, o fim dos tempos será uma época na qual haverá um aumento das práticas consideradas libertinas além de fortes catástrofes e desastres naturais; o sol, por sua vez, nascerá não no leste, mas no oeste. É quando surgirá a Besta da Terra, que distinguirá os que crêem em Allah dos que não crêem, tendo a cabeça de um touro, olhos de um porco, orelhas de um elefante, chifres de veado, pescoço de avestruz, peito de leão, rabo de carneiro e patas de camelo.

    No cristianismo, conhecemos a figura do Anticristo, o tirano que governará o mundo até a segunda vinda de Cristo (evento escatológico que recebe o nome de Parúsia). Pois bem, no islamismo ocorre algo semelhante. Trata-se da vinda de Al-Dajjal, um falso profeta, e os eventos que antecederão o Último Dia serão os resultados catastróficos da batalha entre Mahdi (o verdadeiro profeta) e Al-Dajjal. Mahdi triunfaria sobre Al-Dajjal e, aí sim, Allah ressuscitará os mortos para julgá-los, decidindo se devem seguir para Jannah (paraíso) ou Jahannam (inferno). Ao que tudo indica, não há na escatologia islâmica um lugar semelhante ao limbo como há no cristianismo (ou seja, o lugar neutro para os não cristãos, porém virtuosos).




 
 Imagem: PIXABAY


      

    

Comentários

  1. Allah tem características próximas de Javé, o Deus Pai da trindade santa do cristianismo, mas ao contrário nega profundamente os exageros da vida, tal como luxúria, gula, mas contrapondo, no islamismo aparenta que a abstinência carnal é um sacrifício para se gozar destes bens carnais no paraíso. Ou seja, são coisas boas para Deus. Na visão cristã, nos céus o homem se saciará de Deus, e viverá eternamente as virtudes, tais como a temperança e castidade. Ao meu ver, a partir desta analogia o monoteísmo cristão é mais espirituoso.

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    1. Dentro do islamismo, existe uma vertente conhecida como sufismo. Seu principal representante foi Muhammad Rumi, no período medieval. É uma abordagem mais mística do Alcorão e que se diferencia da linha principal predominante no islamismo. O sufismo aproxima-se até mesmo de um panteísmo.
      Mas sim, certamente há um conjunto de regras bem rígidas. Quanto aos prazeres carnais, me parece que a ortodoxia islâmica não chega a negá-los, porém estabelece essas restrições com relação ao casamento e tal.

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