Ragnarok

    Nada é eterno, nada dura para sempre. Tudo morre um dia, e o mundo, assim como foi criado, também morrerá - até mesmo os próprios deuses... Esse é o Ragnarok, a versão nórdica do fim do mundo.

    Tudo começa com uma visão de Odin de que Balder, o mais adorado dos deuses, iria morrer. Assim, a deusa Frigg, esposa de Odin, fez questão de exigir de cada objeto na natureza um juramento de que não faria mal algum a Balder. Com exceção de um pequeno ramo de visco, que era muito jovem para jurar.

    Assim, os outros deuses divertiram-se e começaram a atirar lanças e outros objetos contra Balder e, como todos os objetos da natureza haviam jurado não lhe fazer mal, nenhum deles feria Balder, que também estava se divertindo com a brincadeira. Mas Loki sabia que um pequeno ramo de visco não jurara, e preparou uma trapaça que, dessa vez, foi além dos limites. Loki fez uma flecha com aquele ramo de visco e a entregou para o deus cego Hođr, ajudando-o a posicionar-se para atirar contra Balder. É claro, Hođr achava que não iria acontecer nada, e só queria participar da brincadeira, mas o que ele não sabia é que aquela flecha foi feita com uma planta que não jurou não machucar Balder.

    Quando Hođr atirou, a flecha perfurou o coração de Balder e todos os deuses pararam de gargalhar e ficaram em profundo silêncio. Loki fugiu e Odin, prontamente, mandou Hermođr até o reino de Hela (filha de Loki) para que esta permitisse que Balder voltasse à vida. Mas a deusa do submundo exigiu uma condição: que todos os seres vivos chorem por ele.

    Assim, surpreendentemente, até mesmo os gigantes de gelo de Jotunheim choraram por Balder, de tanto que ele era amado, e os anões também. Só uma velha gigante que não chorou por Balder, mas, na verdade, ela era ninguém menos que o próprio Loki disfarçado. Então, fizeram o funeral para Balder e sua esposa, Nana, também morreu de tristeza. Mas, agora, os deuses queriam vingança.

    Thor conseguiu capturar Loki e levá-lo a Odin. E Loki receberia uma punição eterna: seria aprisionado debaixo da terra com uma serpente pingando veneno em seu rosto e, a cada vez que Loki gritava, provocava um terremoto. Este era o castigo eterno de Loki. Ou melhor, até o Ragnarok, o fim do mundo.

    Muitos anos se passaram, e Odin sabia que o Ragnarok estava chegando. O lobo Fenrir, que fora aprisionado graças ao sacrifício de Tyr, libertou-se de sua prisão e se dirigiu ao encalço de Asgard, a grande serpente Jormungandr, arqui-inimiga de Thor, saiu do fundo do oceano e se dirigiu ao lar dos deuses passando pela ponte de arco-íris Bifrost. O enorme lobo Hati engolirá a lua, e o lobo Skoll engolirá o sol, colocando todo o mundo em escuridão e trevas. Midgard, o reino dos homens, estava mergulhada no caos e num período de três invernos terríveis acompanhado de muitas guerras entre os homens. E Loki, finalmente, foi liberado por um tremor de terra, e pôde reunir um exército de gigantes para destruir Asgard.

    E Surt, o demônio de fogo de Muspelheim, também estava vindo. Chegou a hora. Heimdall, o guardião de Asgard, soou a trombeta anunciando a chegada do Ragnarok, e todos os deuses prepararam-se para a última das batalhas. Thor encontra-se cara a cara com a enorme serpente de Midgard, que gira em torno do deus com seu corpo para esmagá-lo. No entanto, como Thor estava com seu cinto de força, consegue se livrar e acerta a besta com um trovão, no que, imediatamente, salta para cima dela e, com seu martelo Mjolnir, esmaga sua cabeça. Mas todo o veneno da serpente atinge Thor, que dá nove passos para trás e morre.

    Tyr enfrenta o terrível cão do submundo, Garm. A espada de Tyr contra as presas afiadas de seu adversário resulta na morte de ambos. Era a vez de Odin. Montado em seu cavalo Sleipnir, Odin joga sua lança Gungnir contra o lobo Fenrir, ferindo-o, mas Fenrir leva a melhor e engole Odin. Vidar, o deus da vingança, pula para cima de Fenrir com seu sapato de couro em cima da mandíbula da criatura e, fazendo força com seus braços e pernas, rasga o enorme lobo ao meio, matando Fenrir e vingando a morte de seu pai, Odin. Heimdall vê Loki no campo de batalha, mas este se transforma numa serpente e cospe veneno em seu rosto. Antes de morrer, porém, Heimdall torce o pescoço de Loki e o quebra num estalo. Loki estava morto, e Heimdall também.

    Freyr estava sem sua espada mágica, por infortúnio. Mas, mesmo com chifres de alce, consegue furar um olho do enorme gigante de fogo Surt, mas este também seria o fim do príncipe dos Vanir: Surt cortou-lhe ao meio com sua espada flamejante e colocou fogo por toda a árvore do mundo, Yggdrasil...

    No fim, tudo estava morto e destruído. Até que, conforme algumas versões, Balder teria ressurgido do submundo com sua esposa, e Vidar foi um dos deuses que sobreviveram ao Ragnarok, juntamente com os dois filhos de Thor (Modi e Magni) e o próprio Hœnir, o deus que foi levado para Vanaheim juntamente com Mimir na ocasião da batalha entre os deuses. Os poucos sobreviventes simbolizariam, também, uma possível esperança para o fim sombrio do Ragnarok, e muitos cristãos utilizaram isto para convencer alguns dos nórdicos a renovar suas esperanças para um novo mundo e uma nova religião, na tentativa de convertê-los ao cristianismo. A própria comemoração cristã do Natal de levantar árvores era um costume tipicamente pagão, conhecido como o festival do Yule. Muitos deuses nórdicos foram associados a figuras cristãs para facilitar a conversão dos antigos povos da Europa do Norte.

    Mas, claro, é interessante ressaltar que muitos nórdicos permaneceram pagãos e fiéis aos seus costumes e crenças antigas, mesmo com o avanço do cristianismo. 




Imagem: PIXABAY

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